Esta hilariante gravação do telefonema de uma criança querendo a demolição da escola onde estuda, com os professores dentro, merece ser ouvida. São minutos de puro deleite!
É por causa disso que eu trato meus alunos bem. Vai que eles queiram me explodir...
sexta-feira, 12 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
Quintas com Veríssimo

CRÔNICA DA LOUCURA
Luis Fernando Veríssimo
O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas.
Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.
Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia
do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.
(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até
aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3) E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assuou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.
Ele ri, ..... ri muito, o meu psicanalista, e diz:
- O Ditinho é o nosso office-boy.
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
- E você, não vai ter alta tão cedo...
quarta-feira, 3 de março de 2010
Empreendedorismo na veia - William Kamkwamba
William Kamkwamba, 22 anos, estudante
Sucata, uma bicicleta enferrujada, dois livros amarelados de física elementar, peças de um motor achadas em um ferro velho e, acima de tudo, muito esforço e criatividade. Foi com esse material que fez com que a vida de William Kamkwamba, que passava fome na parte rural do Malauí, virasse do avesso.
Aos 14 anos, o menino largara a escola – sem dinheiro para os US$ 80 anuais exigidos por aluno – e era forçado a cavar o chão em busca de raízes ou cascas de banana, os únicos alimentos possíveis em meio à seca que matava de inanição os habitantes de seu vilarejo, Wimbe. Falido, faminto e sem perspectivas, decidiu parar de imaginar que as coisas se resolveriam com um milagre: era melhor se virar com que tinha, e bem rápido.
Em abundância, havia sol, vento e sucata. "E se eu tentasse fazer algo com isso?", pensava, folheando os livros de ciência de uma minúscula biblioteca improvisada pelo governo norte-americano. Mesmo sem saber inglês, a língua em que as obras eram escritas, fascinava-se com a imagens que mostravam geradores de energia, inexistentes na sua vila e em grande parte do Malauí, o 138º país do mundo em geração e consumo de eletricidade. Por lá, isso é luxo de 2% da população.
Mas foi só quando topou com a capa do livro didático Using Energy, estampando um moinho de vento, que uma lâmpada acendeu em sua cabeça. "Com aquilo, tudo melhoraria. Poderíamos bombear água, aumentar nossas colheitas. Acabaria com a nossa fome", relembra, em entrevista ao Link. "Foi aí que decidi fazer um daqueles".
Seus familiares, vendo o moleque passando daqui pra lá com entulho e toras de madeira, pensaram que ele estava maluco. A certeza viria algumas semanas depois, quando ele derrubou algumas árvores de eucalipto e ergueu uma torre de mais de cinco metros de altura.
Sem incentivo, instrução e "nem noção do que era a internet", William confiava na intuição e nas noções básicas de física que recebeu no colégio. Mas até ele se assustou quando a pás se mexeram e, ao juntar dois fios a uma lâmpada, fez-se a luz.
Trivial para a maioria de nós, a literal gambiarra ("Extensão elétrica com uma lâmpada na ponta, que permite o uso da luz em diferentes localizações", segundo o Houaiss) mudou radicalmente a vida da vila, hoje movida por energia eólica, e ainda mais a de seu idealizador.
Aos 22 anos, Kamkwamba já palestrou no Fórum Social Mundial e no TED, o evento de tecnologia que recebe convidados como Bill Gates e Stephen Hawking. E, diga-se de passagem, foi aplaudido de pé por lá.
Sua história de superação virou até biografia, escrita em parceria com o jornalista Bryan Mealer. The Boy Who Harnessed the Wind (O Garoto que Domou o Vento, ainda inédito por aqui) ficou mais de um mês na lista de mais vendidos do New York Times e foi eleito um dos dez melhores de 2009 pela Amazon. Um documentário sobre ele já está agendado para 2011.
Hoje cursando o último ano da African Leadership Academy, na África do Sul, destinada a formar futuros líderes do continente, ele logo deve se mandar para os EUA. Lá seguirá na universidade e tentará angariar apoio para o seu projeto Moving Windmills, que ajuda vilarejos como o seu a se sustentarem apenas com meios renováveis. Veja só onde aquela gambiarra foi dar...
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