quarta-feira, 3 de março de 2010

Empreendedorismo na veia - William Kamkwamba



William Kamkwamba, 22 anos, estudante

Sucata, uma bicicleta enferrujada, dois livros amarelados de física elementar, peças de um motor achadas em um ferro velho e, acima de tudo, muito esforço e criatividade. Foi com esse material que fez com que a vida de William Kamkwamba, que passava fome na parte rural do Malauí, virasse do avesso.

Aos 14 anos, o menino largara a escola – sem dinheiro para os US$ 80 anuais exigidos por aluno – e era forçado a cavar o chão em busca de raízes ou cascas de banana, os únicos alimentos possíveis em meio à seca que matava de inanição os habitantes de seu vilarejo, Wimbe. Falido, faminto e sem perspectivas, decidiu parar de imaginar que as coisas se resolveriam com um milagre: era melhor se virar com que tinha, e bem rápido.

Em abundância, havia sol, vento e sucata. "E se eu tentasse fazer algo com isso?", pensava, folheando os livros de ciência de uma minúscula biblioteca improvisada pelo governo norte-americano. Mesmo sem saber inglês, a língua em que as obras eram escritas, fascinava-se com a imagens que mostravam geradores de energia, inexistentes na sua vila e em grande parte do Malauí, o 138º país do mundo em geração e consumo de eletricidade. Por lá, isso é luxo de 2% da população.

Mas foi só quando topou com a capa do livro didático Using Energy, estampando um moinho de vento, que uma lâmpada acendeu em sua cabeça. "Com aquilo, tudo melhoraria. Poderíamos bombear água, aumentar nossas colheitas. Acabaria com a nossa fome", relembra, em entrevista ao Link. "Foi aí que decidi fazer um daqueles".

Seus familiares, vendo o moleque passando daqui pra lá com entulho e toras de madeira, pensaram que ele estava maluco. A certeza viria algumas semanas depois, quando ele derrubou algumas árvores de eucalipto e ergueu uma torre de mais de cinco metros de altura.

Sem incentivo, instrução e "nem noção do que era a internet", William confiava na intuição e nas noções básicas de física que recebeu no colégio. Mas até ele se assustou quando a pás se mexeram e, ao juntar dois fios a uma lâmpada, fez-se a luz.

Trivial para a maioria de nós, a literal gambiarra ("Extensão elétrica com uma lâmpada na ponta, que permite o uso da luz em diferentes localizações", segundo o Houaiss) mudou radicalmente a vida da vila, hoje movida por energia eólica, e ainda mais a de seu idealizador.

Aos 22 anos, Kamkwamba já palestrou no Fórum Social Mundial e no TED, o evento de tecnologia que recebe convidados como Bill Gates e Stephen Hawking. E, diga-se de passagem, foi aplaudido de pé por lá.

Sua história de superação virou até biografia, escrita em parceria com o jornalista Bryan Mealer. The Boy Who Harnessed the Wind (O Garoto que Domou o Vento, ainda inédito por aqui) ficou mais de um mês na lista de mais vendidos do New York Times e foi eleito um dos dez melhores de 2009 pela Amazon. Um documentário sobre ele já está agendado para 2011.

Hoje cursando o último ano da African Leadership Academy, na África do Sul, destinada a formar futuros líderes do continente, ele logo deve se mandar para os EUA. Lá seguirá na universidade e tentará angariar apoio para o seu projeto Moving Windmills, que ajuda vilarejos como o seu a se sustentarem apenas com meios renováveis. Veja só onde aquela gambiarra foi dar...



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