
Interessante reportagem do jornal espanhol El País, sobre o uso da mentira na sociedade. É extenso, mas vale uma lida...
Todos mentimos, o que muda é a dose
Silvia Blanco, do El País
Se alguém muito entusiasmado lhe der um pastor-alemão de porcelana em tamanho natural no seu aniversário, o mais provável é que você diga "muito obrigado" e sorria como puder. Mesmo que lhe pareça um cachorro absurdo e você esteja maquinando que, para jogá-lo no lixo, o mais prático será quebrá-lo a marteladas.
A um gentil "Como vai?" no elevador do escritório, pouca gente responderia que está muito deprimida porque vai se divorciar, mesmo que seja verdade. Pura sociabilização. Mark Twain mostrou isso claramente em seu sarcástico "A decadência da arte de mentir": "Ninguém poderia viver com alguém que dissesse a verdade de habitualmente; por sorte, nenhum de nós nunca teve de fazê-lo". Ele escreveu isso mais de um século antes que Robert Feldman, professor de psicologia na Universidade de Massachusetts, estabelecesse em seu livro "The Liar in Your Life" [O mentiroso na sua vida] que mentimos entre duas e três vezes em uma primeira conversa de dez minutos com um novo conhecido.
Mentimos porque há público. Porque os outros existem. As relações exigem esse tipo de ficção consentida, quase sempre inofensiva. O psiquiatra Carlos Castilla del Pino, em seu livro póstumo "Conductas y Actitudes" (ed. Tusquets, 2009), afirma que "a vida social exige temperar, isto é, melhorar como pudermos a imagem de nós mesmos diante dos outros".
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Mas há mentiras que crescem demais e atingem o outro extremo da falsidade, a impostura. Para isso é preciso cálculo, vontade de enganar, muita energia, engenhosidade, memória e provavelmente muito tempo. É assim que se consegue ocultar a própria identidade para cimentar uma nova sobre uma mentira. Há grandes diferenças das "mentirinhas", sim, mas o preocupante é que as grandes e gordas mentiras seguem, segundo Castilla del Pino, mecanismos idênticos.
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Não é difícil compreender - embora não se compartilhe nem se aceite - que um político minta para ocultar que roubou dinheiro público ou que recebe um suborno; que um assassino conte um filme mais ou menos verossímil à polícia para tentar demonstrar que não tem nada a ver com aquele cadáver, ou que alguém invente todo tipo de desculpa para manter uma infidelidade. São mentiras instrumentais, têm um objetivo pontual e correspondem aos três principais motores da falsidade: "poder, sexo e dinheiro", indica Catalán.
"Há algo de gratuito e desnecessário nessa impostura, e portanto de criativo", prossegue. "Mente só para ocupar o centro da atenção. Além de natural (no fundo, poucos preferem passar despercebidos a ser protagonistas), essa motivação retém algo do egocentrismo associal da infância, e por isso pode nos fazer sorrir, porque descumpre o primeiro preceito da prudência adulta nesses casos: nunca se deve mentir quando dizer a verdade é mais vantajoso. O problema surge quando a impostura é radical ou vital; quando ocupa o centro da personalidade do sujeito."
O que há por trás de um impostor? Por que ele arrisca tudo por uma invenção aparentemente desnecessária? "Uma insatisfação sobre a própria personalidade que ele tende a compensar de maneira simbólica. No início há uma recompensa imediata, conta-se algo que impressiona os outros em um pequeno âmbito. Mas depois é cada vez mais difícil ser convincente, envolve-se mais pessoas e perde-se o controle", comenta Catalán.
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