
No início dos anos 90 li um artigo do consultor Nelson Savioli no jornal Estado de São Paulo que me marcou profundamente. Seu título era "Circo de Pulgas, brinquedo caro". Falava ele na ocasião dos malefícios causados aos colaboradores das organizações por estruturas rígidas, que transformavam as pessoas em indivíduos "barrados", com a mente presa e sem alegria no que fazem.
Este conceito foi depois trabalhado por outros bons autores, e muita coisa já melhorou daquela época para hoje. Continuei, entretanto, percebendo nas organizações com que tenho contato no trabalho de consultoria e instrutoria, ou mesmo ouvindo os depoimentos dos meus muitos alunos de negócios, os efeitos perniciosos no psiquismo coletivo das empresas pelas práticas de condicionamento dos funcionários.
Você já deve ter ouvido aquela famosa frase dita ao funcionário novo: "Olha, aqui não funciona assim não! Se você fizer essa sugestão, é capaz do chefe te mandar embora."
Caso se interesse pelo assunto, leia abaixo o artigo do Nelson:
CIRCO DE PULGAS, BRINQUEDO CARO
O que motiva as pessoas é avançar e ter sentimento de auto-realização.
Nelson Savioli
Os brinquedos educativos costumam ressuscitar jogos milenares desafiadores da imaginação infantil. Há um brinquedo barato, natural, com baixo custo de manutenção, que ainda não desapareceu do cenário das crianças, especialmente no Interior. É o circo de pulgas.
Basta uma jarra ou um litro translúcido com a boca cortada, um vidro plano à guisa de tampa e algumas pulgas emprestadas do cão da casa. A criança mantém os minúsculos insetos nesse compartimento fechado por alguns dias batendo a “cabeça” no vidro superior. O que ocorre? Por condicionamento, as pulgas passam a pular uniformemente em altura inferior! Nesse momento, a criança, com ar triunfal digno de um Skinner ou um Pavlov caboclo, retira a tampa do vidro. Está pronta a mágica do circo de pulgas, que dançam mas não abandonam o picadeiro.
Se você acha que é um brinquedo caro é porque não atentou para uma boa parte do “desenvolvimento gerencial” existente em empresas conservadoras ou em grupos chefiados ainda sob a égide do taylorismo.
Apresso-me em compartilhar com vocês como isso ainda é feito na empresa da década de 90. Falta de delegação e apoio para os subordinados, excesso de autoritarismo na condução de trabalho em grupo, exigência constante de perfeccionismo, ambiente espermicida para novas idéias vindas dos níveis inferiores, postura de “pai repressor” quando a criança que existe em todo profissional ousa aparecer, uso contumaz do carimbo NFIA (Não Foi Inventado Aqui). Essa lista não é exaustiva, pois muitas outras são as formas do demônio para restringir o crescimento do potencial de um colaborador. E quase todas elas – à maneira da tampa do circo – são transparentes, dissimuladas ou justificadas.
Aliás, mais do que a ação traquina da chefia, a cultura organizacional pode ser o reforçador de uma infinidade de travas ao desenvolvimento dos talentos. Os mais freudianos arriscarão o palpite de que o medo da morte (organizacional, no caso) é o motor para que um gerente tolha o crescimento da equipe, agindo numa pretensa legítima defesa. O pior, dirão os junguianos, é se esse comportamento estiver no inconsciente coletivo da organização, dando sinais constantes à manutenção da sua cultura, como um valor aprendido e que deve ser repassado às próximas gerações.
Qual o preço desse brinquedo cruel na empresa brasileira? É, ao menos, preocupante, pois mantém o País na sua anemia de produtividade e qualidade, dificultando-lhe a competitividade interna e externa. É o desabrochar precoce do potencial do operário e do líder que os farão contribuir e participar mais no empreendimento a que estejam ligados. Ou, se estiverem insatisfeitos com a condição de assalariados, de se lançarem como micro ou macro empreendedores. Porque o que motiva as pessoas é avançar e ter um sentimento de auto-realização.
Se você tem pulgas com músculos potentes nas pernas, e na cabeça um sonho ousado de voar por cima das bordas do seu aquário, dê-lhes uma oportunidade. Quebre a tampa de vidro. Vai causar certamente muita coceira nos gatos e cachorros da redondeza, mas vai movimentar o ambiente.
A ciência, os empreendimentos, as civilizações só progrediram quando houve movimento numa situação estagnada.
Abaixo o circo de pulgas. Viva o jogo do espírito criador!
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